quinta-feira, 19 de março de 2009

#1

Ele fechava os olhos e fazia o mesmo movimento que o pai dele faria se estivesse na mesma situação. Como se pudesse prever. Como se prevesse por detrás daqueles óculos grandes e antigos. Anos 60. Tudo naquela casa cherava a anos 60. O objeto mais novo era uma geladeira recém-comprada que ainda não tinha sido tirada de dentro da caixa de papelão.
Tudo que era novo era desprezado, desrespeitado.
"Tudo que era..." - a tentativa de um pensamento lógico, interrompido pelo pingo d´agua que caia na pia do banheiro.
"Tudo que eu não quero que faça parte de mim, faz", disse rápido e logo riu da própria frase sem nexo e tão solta.

O pé de jabuticaba balançava com o vento forte. Talvez chuva.
Agora era isso que chamava a atenção dele.
Mudava de objetivo como quem muda de... como quem muda de amores.
Todos densos, todos vividos como se fossem os únicos e últimos.

Agora o que fazia barulho era o portão da casa do vizinho.
Barulho de coisa enferrujada. Barulho de coisa gasta, usada. Barulho de coisa esquecida.

Todos os barulhos tão próximos. Parecia que podia segura-los nas mãos e... talvez não.

(continua)

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